O Haiti e o preço da liberdade
À única revolução de escravos vitoriosa da história foi apresentada a fatura da sua própria liberdade, e pagou-a durante 122 anos.
Quando aconteceu
- 1789 The Declaration of the Rights of Man Read in the colony immediately, and by everyone.
- August 1791 The rising in the northern plain Following a ceremony at Bois Caïman. Within weeks much of the north is burning.
- 1793–94 Emancipation, granted because it had been taken Sonthonax proclaims it in the north; Paris ratifies it for all colonies in February 1794.
- 1801 Toussaint’s constitution Governor for life, while remaining formally French, a bid for autonomy short of a break.
- 1802 Bonaparte sends Leclerc; slavery restored by law At Matouba in Guadeloupe, Delgrès and his followers blow themselves up rather than return to it.
- 18 November 1803 Vertières Dessalines breaks the French. Napoleon sells Louisiana to the United States the same year.
- 1 January 1804 Independence; the country takes back a Taíno name And, weeks later, Dessalines orders the massacre of the remaining French population.
- 17 April 1825 The ordinance of Charles X 150 million francs, plus half duty for French shipping. Only then is independence conceded.
- 1838 The principal renegotiated to 90 million Paid by borrowing from banks in the country receiving the indemnity. This is the double debt.
- 1862 The United States recognises Haiti Fifty-eight years late — once the slaveholding states had left Congress.
- 1915–1934 The United States occupies Haiti The constitution rewritten to allow foreign land ownership; the corvée reimposed.
- 1947 The last associated loan retired A hundred and twenty-two years of paying for the loss of itself.
- 2022 The ransom, reconstructed Archival work puts the cost in foregone growth between 21 and 115 billion dollars.
Os termos assinalados têm uma definição curta: passe o cursor ou toque no ecrã tátil.
«Os atuais habitantes da parte francesa de São Domingos pagarão… a quantia de cento e cinquenta milhões de francos.»
— Ordenança de Carlos X, 17 de abril de 1825, entregue em Porto Príncipe por uma esquadra de catorze navios de guerraEm 1791 os escravizados da colónia mais rica de França levantaram-se, derrotaram sucessivamente os plantadores locais, uma força expedicionária britânica, um exército espanhol e por fim os próprios veteranos de Napoleão Bonaparte, e em 1804 declararam um Estado independente. É a única revolução de escravos em grande escala bem-sucedida na história registada, e o único caso em que os antes escravizados fundaram o país.
Trinta e quatro anos depois, esse país continuava a pagar aos descendentes dos seus antigos proprietários pela perda de si próprio.
Este capítulo trata de porquê. Não de porque aconteceu a revolução (essa parte é simples), mas de por que a resposta de todos os outros Estados foi a quarentena e a extorsão, mantidas durante mais de um século, a um custo enorme para uma população que cometera a ofensa específica para que esta crónica vem a construir: refutar a premissa.
O lugar mais lucrativo da terra
São Domingos produzia na década de 1780 cerca de 40 por cento do açúcar do mundo e cerca de 60 por cento do seu café, além de anil e algodão. Gerava mais receita para França do que toda a América espanhola para Espanha. Um terço do comércio externo francês passava por lá, e as cidades portuárias de Bordéus e Nantes ergueram-se sobre ela.1
A aritmética por baixo era esta: cerca de 500 000 escravizados, cerca de 30 000 brancos e cerca de 28 000 , gente de cor livre, muitos deles proprietários, juridicamente subordinados por um conjunto de leis raciais apertadas ao longo do século XVIII.
A população escravizada não se reproduzia. As condições de trabalho no açúcar eram letais (corte de cana, casas de caldeiras, turnos noturnos na safra), e saía mais barato importar um substituto do que manter um trabalhador vivo. A colónia absorvia dezenas de milhares de novos cativos por ano só para não diminuir. Uma grande proporção dos que se levantaram em 1791 nascera em África e fora adulta e livre; alguns tinham experiência militar das guerras do Kongo e do golfo do Benim. Isto importa para o que se seguiu: não eram uma população que não tivesse conhecido outra coisa.
1791–1804
A revolução em França abriu a porta e depois tentou fechá-la. A Declaração dos Direitos do Homem de 1789 foi lida na colónia de imediato e por todos. Os plantadores queriam as suas liberdades para si e autonomia face a Paris; os homens livres de cor queriam os direitos políticos que o texto claramente implicava; a Assembleia Nacional adiou durante dois anos. Em 1791 Vincent Ogé, um homem livre de cor que fora a Paris pedir esses direitos, regressou, pegou em armas, foi capturado e foi quebrado na roda.
Agosto de 1791: o levantamento. A revolta na planície do norte começou depois de uma cerimónia em associada ao sacerdote vodu Boukman. Em poucas semanas ardia grande parte das plantações do norte.
1793–94: emancipação, concedida porque já fora tomada. O comissário republicano Sonthonax, precisando de soldados contra britânicos e espanhóis e contra os plantadores, proclamou a emancipação no norte em agosto de 1793. A Convenção em Paris ratificou a abolição para todas as colónias em fevereiro de 1794. Esta é a sequência que importa: a França não libertou São Domingos. São Domingos libertou-se e a França legalizou o facto.
Toussaint Louverture. Nascido escravo, libertado antes da revolução, organizador soberbo e melhor diplomata do que qualquer dos seus adversários. Lutou primeiro por Espanha, depois passou-se para a República quando esta aboliu a escravatura, expulsou os britânicos, unificou a ilha e em 1801 promulgou uma constituição que o fazia governador vitalício mantendo-se formalmente francês, um documento que se lê como uma aposta na autonomia sem chegar à rutura.
1802: Bonaparte. Napoleão enviou o cunhado Leclerc com uma expedição que acabaria por somar bem mais de 40 000 soldados, com o objetivo de restaurar a ordem anterior a 1789. A escravatura foi formalmente restabelecida nas colónias francesas pela lei de 20 de maio de 1802; em Guadalupe, Louis Delgrès e os seus seguidores, encurralados em Matouba, fizeram-se explodir em vez de voltar a ela. Toussaint foi convidado para uma parlamentação, preso, deportado para França, e morreu numa cela do Forte de Joux em abril de 1803.
E isso resolveu a questão. Uma vez claro que a intenção francesa era reescravizar, a guerra tornou-se total. A febre amarela destruiu a expedição (o próprio Leclerc morreu dela), e Rochambeau, seu sucessor, respondeu com afogamentos, câmaras de gás improvisadas em porões de navios e cães importados de Cuba para atacar prisioneiros. A 18 de novembro de 1803 o exército de Jean-Jacques Dessalines quebrou os franceses em . A 1 de janeiro de 1804 foi declarada a independência, e o país retomou um nome indígena taíno: .
O que custou aos impérios
Duas consequências foram muito além da ilha.
Os Estados Unidos duplicaram de tamanho. O plano caribenho de Napoleão dependia de São Domingos como eixo; a Luisiana devia ser o seu celeiro. Destruída a expedição, o plano nada valia, e em 1803 vendeu a Luisiana aos Estados Unidos por 15 milhões de dólares. A república americana adquiriu a bacia do Mississípi porque revolucionários negros nas Caraíbas derrotaram um exército francês. Jefferson, que negociou a compra, recusava ao mesmo tempo reconhecer o Estado que a tornara possível.2
O exemplo. A constituição haitiana de 1805 declarou todos os cidadãos negros independentemente da tez, proibiu os brancos de possuir terra e ofereceu cidadania a qualquer pessoa africana ou indígena que pisasse o país. O apoio haitiano ajudou depois Simón Bolívar a relançar a sua campanha na América do Sul, com a condição, posta por Pétion, de que abolisse a escravatura. Nos Estados Unidos escravistas e nas Caraíbas escravistas, o Haiti era aquilo de que não se devia falar e de que não se conseguia deixar de falar.
Duas coisas que não se devem alisar. No início de 1804 Dessalines ordenou o massacre da população francesa restante, vários milhares de pessoas, incluindo mulheres e crianças, com isenções para desertores polacos que tinham mudado de lado e alguns outros. Foi uma decisão tomada por um homem que acreditava, com razão, que qualquer comunidade francesa sobrevivente seria a cabeça de ponte para a reescravização. Foi também um massacre de civis, e esta crónica não tem categoria em que isso se torne aceitável.
E os governos haitianos posteriores à independência não foram inocentes do resultado: Dessalines e Christophe usaram ambos trabalho forçado nas plantações para manter as receitas de exportação, o Estado fraturou-se em regimes rivais, e a classe dirigente que emergiu reproduziu internamente a hierarquia de cor. A pobreza do Haiti não é só a indemnização. A tese deste capítulo é que a indemnização, o embargo e as ocupações foram o constrangimento externo decisivo, imposto deliberadamente e mensurável.
O resgate
Esta é a parte que não tem paralelo.
A França recusou o reconhecimento durante duas décadas. Os Estados Unidos recusaram-no durante cinquenta e oito anos, até 1862, quando os estados esclavagistas do sul tinham abandonado o Congresso. O Vaticano reteve uma concordata até 1860. O comércio foi restringido; o Haiti enfrentou tarifas e exclusões; e um Estado não reconhecido não pode contrair dívida, segurar navios nem fazer cumprir um contrato.
Em abril de 1825 Carlos X enviou uma ordenança a Porto Príncipe, escoltada por catorze navios de guerra com várias centenas de canhões. Os termos: a França reconheceria a independência haitiana em troca de 150 milhões de francos, pagáveis em cinco prestações anuais, mais uma redução de 50 por cento nos direitos aduaneiros para a navegação francesa. A quantia foi fixada aproximadamente no que os plantadores reclamavam pelos seus bens perdidos, incluindo o valor das pessoas que eram agora os cidadãos do Estado a quem se passava a fatura.
O presidente Boyer aceitou, sob os canhões. Só a primeira prestação excedia toda a receita anual do Haiti, e o Haiti pediu-a emprestada, a bancos franceses. É o mecanismo a que os historiadores chamam dívida dupla: uma indemnização que só podia ser paga contraindo empréstimos junto de instituições do país que recebia a indemnização, com juros. O capital foi renegociado em baixa para 90 milhões em 1838. Pagamentos e refinanciamentos continuaram pelo século XX; o último dos empréstimos associados foi liquidado em 1947.3
Uma investigação do New York Times de 2022 reconstruiu os fluxos a partir de arquivos franceses e haitianos e estimou que os pagamentos e o seu financiamento custaram ao Haiti entre 21 e 115 mil milhões de dólares em crescimento económico perdido, consoante os pressupostos. Nas décadas de maior peso, o serviço da dívida consumia uma grande parte do orçamento nacional, dinheiro não gasto em estradas, escolas, portos ou saneamento, no século em que outros Estados construíam as quatro coisas.4
E depois as ocupações
A pressão não acabou com a dívida. Em dezembro de 1914 fuzileiros norte-americanos entraram no Banco Nacional em Porto Príncipe e retiraram cerca de meio milhão de dólares em ouro para Nova Iorque «para guarda». Em julho de 1915 os Estados Unidos invadiram e ocuparam o Haiti durante dezanove anos, reescreveram a constituição (eliminando a proibição de estrangeiros possuírem terra), reimpuseram a corveia de trabalho forçado para construir estradas e mataram milhares ao reprimir a insurgência dos cacos. Smedley Butler, o general dos fuzileiros que dirigiu boa parte disso, descreveu mais tarde a sua carreira como extorsão ao serviço de interesses bancários, e nomeou o Haiti expressamente.5
No século XX o padrão continuou noutras formas: apoio norte-americano às ditaduras dos Duvalier como ativos anticomunistas, ajustamento estrutural que desmantelou a produção haitiana de arroz a favor de importações americanas subsidiadas (pelo que Bill Clinton pediu publicamente desculpa em 2010), a contestada remoção de Aristide em 2004 depois de ele ter exigido formalmente a França a restituição da indemnização, e uma missão de paz da ONU que introduziu a cólera em 2010, matando cerca de 10 000 pessoas, o que a ONU reconheceu em 2016.
Por que tinha de ser o Haiti
O tratamento não faz sentido como economia. Faz todo o sentido como o capítulo 8 a defender-se.
O sistema atlântico assentava numa proposição: que esta gente serve para isto e não pode fazer outra coisa. São Domingos refutou-a da maneira mais pública possível: militarmente, contra o melhor exército da Europa, e depois constitucionalmente, fundando um Estado. Se se permitisse que essa refutação ficasse como acontecimento ordinário, todas as sociedades esclavagistas do hemisfério teriam um problema que nenhuma teologia e nenhuma ciência racial conseguiriam remendar.
Por isso não se lhe permitiu ser ordinário. Foi posto em quarentena, faturado, invadido e, sobretudo, narrado: como caos, como barbárie, como prova de que o autogoverno negro falha. Os Jacobinos Negros, de C. L. R. James, escrito em 1938, abre notando quão completamente a revolução fora apagada das histórias da era das revoluções.6 Michel-Rolph Trouillot foi mais longe: o acontecimento não foi meramente esquecido mas impensável dentro das categorias disponíveis aos europeus da época, e por isso foi processado como outra coisa.7
Lembre-se deste capítulo quando chegar aos capítulos 27 e 28. Um país pobre que se governa bem é um problema para uma hierarquia que precisa que ele falhe, e a maquinaria para lidar com esse problema estava plenamente desenvolvida em 1825.
Notas
- Laurent Dubois, Avengers of the New World: The Story of the Haitian Revolution (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2004), pp. 1–40; David Geggus, Haitian Revolutionary Studies (Bloomington: Indiana University Press, 2002). ↩
- Tim Matthewson, A Proslavery Foreign Policy: Haitian-American Relations during the Early Republic (Westport: Praeger, 2003). ↩
- Ordonnance du Roi, 17 de abril de 1825; sobre o financiamento, Alex Dupuy, Haiti in the World Economy (Boulder: Westview, 1989), e Laurent Dubois, Haiti: The Aftershocks of History (Nova Iorque: Metropolitan, 2012), cap. 3. ↩
- Catherine Porter, Constant Méheut, Matt Apuzzo e Selam Gebrekidan, «The Ransom», The New York Times, 20 de maio de 2022, com a nota metodológica anexa e as séries de arquivo em que se apoia. ↩
- Hans Schmidt, The United States Occupation of Haiti, 1915–1934 (New Brunswick: Rutgers University Press, 1971); Mary A. Renda, Taking Haiti (Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2001); Smedley D. Butler, War Is a Racket (Nova Iorque: Round Table Press, 1935). ↩
- C. L. R. James, The Black Jacobins (Londres: Secker & Warburg, 1938). ↩
- Michel-Rolph Trouillot, Silencing the Past: Power and the Production of History (Boston: Beacon Press, 1995), cap. 3. ↩
Quem esteve envolvido
- Figuras
Toussaint Louverture
Autonomy, short of a break
Born enslaved and freed before the revolution; a superb organiser and a better diplomat than any of his opponents. He fought for Spain, switched to the Republic once it abolished slavery, expelled the British, unified the island, and in 1801 made himself governor for life while remaining formally French. Invited to a parley in 1802, he was seized, deported, and died in a cell at the Fort de Joux in the Jura in April 1803.
Dubois, Avengers of the New World (2004)
- Figuras
Jean-Jacques Dessalines
No return, at any price
He broke the French at Vertières on 18 November 1803 and declared independence on 1 January 1804, taking back an Indigenous Taíno name for the country. Weeks later he ordered the massacre of the remaining French population, several thousand people, with exemptions for the Polish deserters who had changed sides. He had reason to believe any surviving French community would be a bridgehead for re-enslavement. It was also a massacre of civilians, and this chronicle has no category in which that becomes acceptable.
- Figuras
Dutty Boukman
The northern plain
The revolt in the northern plain began following a ceremony at Bois Caïman associated with him. Within weeks a large part of the north’s plantations were burning. A significant proportion of the people who rose had been born in Africa, had been free adults, and some had military experience from the wars of the Kongo and the Bight of Benin, which is to say this was not a population that had known nothing else.
- Figuras
Louis Delgrès
Live free or die
When Bonaparte restored slavery in the French colonies by the law of 20 May 1802, Delgrès and his followers were cornered at Matouba in Guadeloupe. They blew themselves up rather than return to it. Guadeloupe was re-enslaved; Saint-Domingue was not. The difference is the reason the next two decades were spent making an example of the one that got out.
- Figuras
Napoleon Bonaparte
The pre-1789 order, restored
He sent his brother-in-law Leclerc with an expedition that eventually totalled well over 40,000 troops, and restored slavery by law in May 1802. Yellow fever destroyed the expedition; Rochambeau answered with drownings, improvised gas chambers in ships’ holds, and dogs imported from Cuba. When the Caribbean plan failed, Louisiana was worthless to him and he sold it. The United States doubled in size because Black revolutionaries beat a French army.
- Figuras
Charles X
The former colonists’ claim
His ordinance of 17 April 1825 arrived at Port-au-Prince escorted by fourteen warships. Two articles: French shipping at half duty, and 150 million francs "in compensation to the former colonists", a sum set at roughly what the planters claimed for their lost property, including the value of the people who were now the citizens of the state being billed.
Ordonnance du Roi, 17 April 1825
- Figuras
C. L. R. James
Putting the revolution back in the age of revolutions
The Black Jacobins opens by noting how completely the Haitian revolution had been erased from the histories of the age of revolutions. Michel-Rolph Trouillot later pushed the point further: the event was not merely forgotten but unthinkable within the categories available to Europeans at the time, and so was processed as something else: as chaos, as barbarism, as proof that Black self-government fails.
James, The Black Jacobins (1938) · Trouillot, Silencing the Past (1995)
- Figuras
Smedley D. Butler
Later, against his own career
He led much of the nineteen-year occupation of Haiti, during which the constitution was rewritten to permit foreign land ownership and the forced-labour corvée was reimposed for road building. He later described his career as racketeering for banking interests and named Haiti specifically. It is a rare thing: the operation described accurately by the man who ran it.
Butler, War Is a Racket (1935)